Cultura africana no Brasil no ENEM - Pará 2025
Coração tição
Quero me lambuzar nos mares negros
para não me perder,
conseguir chegar no meu destino.
Não quero ser parda, mulata
Sou afro-brasileira-mineira.
Bisneta
de uma princesa de Benguela.
Não serei refém de valores
que não me pertencem.
Quero sentir meu coração
como um tição.
Não vou deixar que o mito
do fogo entre as pernas iluda e desvie
homens e mulheres
daqui por diante.
CRUZ, A. E. Feito luz. Florianópolis: ND, 2006.
Nesse poema, o jogo entre afirmações e negações reflete a expressividade de um eu lírico que
Ver gabarito e explicação
Gabarito: A
O poema mostra um eu lírico que afirma sua identidade dizendo "Não quero ser parda, mulata. Sou afro-brasileira-mineira" e que "não serei refém de valores que não me pertencem". Essas negações são uma recusa direta a classificações e estereótipos impostos historicamente sobre o corpo e a identidade da mulher negra. A expressão "coração tição" e a menção ao "mito do fogo entre as pernas" reforçam a rejeição a imagens hipersexualizadas.
As afirmações convivem com as negações para construir uma voz que se posiciona contra imposições sociais, culturais e raciais. O eu lírico não busca apenas descrever sua memória ou herança mítica (alternativas B e C), nem reivindica especificamente reconhecimento de feminilidade (D) ou rejeição de emotividade de gênero (E). O foco está em romper com valores que foram historicamente forjados sobre seu povo e seu corpo.
Por isso, a alternativa correta é a A: o eu lírico recusa imposições historicamente forjadas, usando o contraste entre o que afirma e o que nega para marcar sua liberdade de autodefinição.
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