Variante linguística no ENEM - Pará 2025
Saudades da secretária eletrônica
Talvez o Vale do Silício queira transformar nosso cérebro em patê para depois comê-lo
1 Meu velho pai sabe das coisas. Eu o chamo de “velho pai” não porque seja realmente velho
2 é como ele se chama ao falar comigo. Às vezes usa o epíteto num modo semi-irônico, como
3 quem põe um cachimbo na boca para uma foto. Outras vezes é mais sério - acende o
4 cachimbo. Na semana passada, por exemplo, me escreveu à uma e meia da manhã pedindo
5 para lhe mandar um x-salada: “Alimente seu velho pai”. Meu velho pai não usa Uber Eats,
6 iFood, Rappi ou qualquer uma “dessas coisas”.
7 Meu velho pai ra de saco cheio “dessas coisas”. Outro dia ele me ligou. “Recebeu
8 minha mensagem?”. “Por onde?”. Silêncio. “Não aguento mais essas coisas” - e começou
9 a reclamar da dificuldade de nos comunicarmos por tantos canais: “é WhatsApp, SMS,
10 e-mail, DM ou Facebook, no Instagram, no Twitter…”. “Qual era a mensagem, pai?”. “Aí é
11 que ta. Eu tive uma ideia muito boa no meio da noite e te escrevi para não esquecer, agora
12 não lembro nem da ideia nem por onde escrevi”
13 Segundo meu velho pai, a razão de ele e tantos outros estarmos desmemoriados é
14 “dessas coisas”: aplicativos e plataformas e dispositivos jorrando uma quantidade infinita
15 de informação que de bom grado entuchamos retina abaixo, cada tela um daqueles funis
16 de milho pra transformar fígado de ganso em patê. (Talvez o plano do Zuckerberg e seus
17 comparsas seja esse: transformar nossos cérebros em patê para depois comê-los com
18 cream-crackers-low-carb-glúten-free-ESG-sem-pegadas-de-carbono. A hipótese é absurda,
19 mas não mais que o furdunço global que estamos vivendo).
20 Meu velho pai tá injuriado com o furdunço global que estamos vivendo e tem uma
21 proposta bem razoável para minorá-lo. “Cinco anos sem inventarem nada. Nada. Todo
22 mundo fica com o celular que tem, com o Android que tem, o IOS que tem, com os aplicativos
23 que tem e os canais de televisão que tem. Quando a gente aprender a usar tudo, assistir
24 a todas as séries, ler todos os livros, ouvir todos os podcasts, vê se precisa inventar mais
25 alguma coisa ou para por aí mesmo”.
26 Concordo. A humanidade precisa de um novo Adobe Reader a cada semana pra quê,
27 exatamente?! De que forma PhDs em física podem “otimizar” um troço que é basicamente
28 um xerox eletrônico?
29 Na faculdade eu penava pra entender o que o Marx queria dizer com aquele papo de
30 “a infraestrutura produz a superestrutura”. Mais tarde entendi e era simples e verdadeiro.
31 A nossa maneira de agir molda a nossa maneira de pensar. Um pescador no século 19 se
32 relaciona com o tempo, a comida, o sexo e as unhas dos pés de formas completamente
33 diferentes do que um programador de vinte e dois anos, hoje, no Vale do Silício. É evidente
34 que existe uma ligação direta entre a placa do meu celular e a minha placa para bruxismo.
35 Quando meus dedos aflitos param de digitar, passam o turno pros dentes.
36 O supracitado alemão resumiu o que parecia ser o fim dos tempos com a frase “tudo
37 o que é sólido desmancha no ar”. O que diria sobre nossa época em que o próprio ar se
38 desmancha, inundado por dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e sei lá mais o quê?
39 “Tinha que ser geral”, sugere meu velho pai, “com Biden, Merkel, China, ONU, com tudo:
40 cinco anos sem inventarem nada. Nada. Que saudades da secretária eletrônica”.
PRATA, A. Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 11 ago. 2024 (adaptado).
O trecho dessa crônica que reproduz uma marca linguística recorrente na oralidade de muitos brasileiros é:
Ver gabarito e explicação
Gabarito: B
A questão cobra a identificação de um trecho que reproduz uma *marca linguística recorrente na oralidade de muitos brasileiros*. Ou seja, você precisa achar a frase que soa mais natural na fala cotidiana, mesmo que não siga a norma culta padrão.
Vamos analisar cada alternativa. A opção A (“Eu o chamo de ‘velho pai’”) usa o pronome “o” como objeto direto, que é comum na escrita formal, mas raro na oralidade (o brasileiro diria “eu chamo ele”). A opção C tem “a razão de ele e tantos outros estarmos” – construção sintática complexa e formal. A opção D usa o verbo “minorar” (reduzir), que é muito erudito e incomum na fala espontânea. A opção E segue a regra culta de crase (“assistir a todas as séries”), que na oralidade seria frequentemente simplificada.
A alternativa B, “e te escrevi pra não esquecer”, apresenta duas marcas típicas da oralidade: o uso do pronome “te” como objeto (em vez de “lhe” ou “o”) e a contração “pra” (em vez de “para”). Essa redução e escolha do pronome “te” são extremamente comuns na fala dos brasileiros em contextos informais, mesmo que a norma culta prefira outras formas. Por isso, é a alternativa correta.
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