Variante linguística no ENEM - Pará 2025
Quando a porta se abriu, ouvi em tom baixo: “Não saia daí até eu voltar!”. E ela se fechou, me deixando ali, no escuro. [...] Até que acabaram os biscoitos e a água que levamos na mochila. Bateu sede, mas eu não podia sair do quartinho. Bateu fome, mas eu não podia sair do quartinho. Bateu vontade de fazer xixi, mas… descobri que tinha um microbanheiro atrás de outra porta branca: um vaso sanitário, um chuveiro que por pouco não estava sobre o vaso e, em frente aos dois, uma pia com um espelho na parede acima dela. Entre o espelho e a pia, uma prateleira com um pote, um tubo de pasta de dentes e uma escova dentro. Tudo no diminutivo.
Quando ter uma empregada que dorme no trabalho passou a ser algo caro e não de muito bom-tom, os corretores de imóveis chamariam esse local da casa de “quarto reversível”, um nome para não chamar o quartinho de quartinho ou do que ele realmente era: um lugar para serviçais, criadas, babás, domésticas, amas, empregadas. Todos esses nomes que deram e dão até hoje a quem é “quase da família”. Um lugar onde estivesse ao alcance do comando de voz, do olhar, ao alcance das mãos… A tempo de hora, vinte e quatro horas por dia.
CRUZ, E. A. Solitaria. São Paulo: Cia. das Letras, 2022.
Nesse fragmento, ao refletir sobre aspectos da rotina de trabalho da mãe, a narradora
Ver gabarito e explicação
Gabarito: E
A narradora descreve um "quartinho" onde a mãe ou uma empregada dorme e reflete como, com o tempo, passaram a chamar esse espaço de "quarto reversível" para evitar o termo direto. No entanto, ela deixa claro que, apesar do novo nome, a função continua sendo a mesma: um lugar para serviçais, criadas, babás — pessoas "quase da família" que ficam disponíveis 24 horas.
Essa mudança de nomenclatura não altera a estrutura social: o quartinho continua existindo como um espaço reduzido, funcional e hierarquicamente marcado. A reflexão da narradora indica que, por trás do eufemismo, permanece a divisão de classes no trabalho doméstico, em que a empregada tem sua presença e necessidades minimizadas.
Dessa forma, a alternativa correta é a letra E, pois o texto sugere que essa divisão de classe persiste, mesmo com tentativas de suavizar ou disfarçar a realidade com novos termos.
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