Cultura africana no Brasil no ENEM 2023
Alguém muito recentemente cortara o mato, que na época das chuvas crescia e rodeava a casa da mãe de Ponciá Vicêncio e de Luandi. Havia também vestígios de que a terra fora revolvida, como se ali fosse plantar uma pequena roça. Luandi sorriu. A mãe devia estar bastante forte, pois ainda labutava a terra. Cantou alto uma cantiga que aprendera com o pai, quando eles trabalhavam na terra dos brancos. Era uma canção que os negros mais velhos ensinavam aos mais novos. Eles diziam ser uma cantiga de voltar, que os homens, lá na Africa, entoavam sempre, quando estavam regressando da pesca, da caça ou de algum lugar. O pai de Luandi, no dia em que queria agradar à mulher, costumava entoar aquela cantiga ao se aproximar de casa. Luandi não entendia as palavras do canto; sabia, porém, que era uma língua que alguns negros falavam ainda, principalmente os velhos. Era uma cantiga alegre. Luandi, além de cantar, acompanhava o ritmo batendo com as palmas das mãos em um atabaque imaginário. Estava de regresso à terra. Voltava em casa. Chegava cantando, dançando a doce e vitoriosa cantiga de regressar.
EVARISTO, C. Ponciá Vicêncio. Rio de Janeiro: Pallas, 2018.
A leitura do texto permite reconhecer a “cantiga de voltar” como patrimônio linguístico que
Ver gabarito e explicação
Gabarito: C
O trecho informa que os negros mais velhos transmitiam a canção para as novas gerações, configurando um ciclo de repasse intergeracional. Luandi não decifra o léxico, mas incorpora o ritmo e a atitude corporal, o que comprova que o valor cultural reside na continuidade do exercício coletivo e não na decodificação imediata do idioma original.
Essa dinâmica de ensino-aprendizado entre anciãos e jovens afasta leituras que apontam linguagem extinta, compreensão lexical ou tonalidade triste. O texto mostra explicitamente que a memória linguística sobrevive pelo costume de cantar e marcar o compasso, indicando que a prática preserva a ancestralidade africana por meio da tradição oral. Alternativa correta: C.
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