Cultura africana no Brasil no ENEM PPL 2019
As cores
Maria Alice abandonou o livro onde seus dedos longos liam uma história de amor. Em seu pequeno mundo de volumes, de cheiros, de sons, todas aquelas palavras eram a perpétua renovação dos mistérios em cujo seio sua imaginação se perdia. [...] Como seria cor e o que seria? [...]. Era, com certeza, a nota marcante de todas as coisas para aqueles cujos olhos viam, aqueles olhos que tantas vezes palpara com inveja calada e que se fechavam, quando os tocava, sensíveis como pássaros assustados, palpitantes de vida, sob seus dedos trêmulos, que diziam ser claros. Que seria o claro, afinal? Algo que aprendera, de há muito, ser igual ao branco. [...] E agora Maria Alice voltava outra vez ao Instituto. E ao grande amigo que lá conhecera. [...]. Lembrava-se da ternura daquela voz, da beleza daquela voz. De como se adivinhavam entre dezenas de outros e suas mãos se encontravam. De como as palavras de amor tinham irrompido e suas bocas se encontrado... De como um dia seus pais haviam surgido inesperadamente no Instituto e a haviam levado à sala do diretor e se haviam queixado da falta de vigilância e moralidade no estabelecimento. E de como, no momento em que a retiravam e quando ela disse que pretendia se despedir de um amigo pelo qual tinha grande afeição e com quem se queria casar, o pai exclamara, horrorizado: — Você não tem juízo, criatura? Casar-se com um mulato? Nunca! Mulato era cor. Estava longe aquele dia. Estava longe o Instituto, ao qual não saberia voltar, do qual nunca mais tivera notícia, e do qual somente restara o privilégio de caminhar sozinha pelo reino dos livros, tão parecido com a vida dos outros, tão cheio de cores...
LESSA, O. Seleta de Orígenes Lessa. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973.
No texto, a condição da personagem e os desdobramentos da narrativa conduzem o leitor a compreender o(a)
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Gabarito: A
A personagem é cega e compreende o branco apenas por associação verbal. O pai interrompe o romance ao declarar “Mulato era cor”, transformando uma diferença biológica em sinalização social proibitiva. Essa ruptura comprova que a marcação racial opera como barreira independente da realidade concreta, já que o casal coexiste e se afeta sem qualquer restrição física ou sensorial.
A narrativa sustenta esse argumento ao isolar a protagonista nos livros após o rompimento, demonstrando como o preconceito recorta vínculos pessoais em nome de hierarquias estabelecidas. A fixação paterna na “cor” desconecta o termo de sua aplicação ótica e o associa rigidamente à linhagem, revelando o mecanismo de segregação. Dessa forma, o texto demonstra que a cor funciona como metáfora da discriminação racial, confirmando a alternativa A.
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