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Poesia Marginal no ENEM 2018

ENEM 2018PortuguêsMédia

Quebranto

 

às vezes sou o policial que me suspeito

me peço documentos

e mesmo de posse deles

me prendo e me dou porrada

às vezes sou o porteiro
 

não me deixando entrar em mim mesmo

a não ser

pela porta de serviço

[..]

às vezes faço questão de não me ver

e entupido com a visão deles

sinto-me a miséria concebida como um eterno

começo

fecho-me o cerco

sendo o gesto que me nego

a pinga que me bebo e me embebedo

o dedo que me aponto

e denuncio

o ponto em que me entrego.

às vezes!...

CUTI. Negroesia. Belo Horizonte: Mazza, 2007 (fragmento).

Na literatura de temática negra produzida no Brasil, é recorrente a presença de elementos que traduzem experiências históricas de preconceito e violência. No poema, essa vivência revela que o eu lírico:

Ver gabarito e explicação

Gabarito: A

O poema apresenta o eu lírico assumindo papéis de vigilância e segregação, como os do policial e do porteiro. Ele mesmo cobra seus documentos, prende-se e nega o acesso ao próprio corpo por entradas secundárias. Essa cena demonstra a incorporação seletiva do discurso do seu opressor, pois o sujeito internaliza as estruturas de poder e as aplica contra si mesmo, tornando-se agente da própria exclusão.

A vivência relatada ultrapassa a agressão física imediata e aponta para a colonização subjetiva provocada pelo racismo estrutural. Ao repetir internamente os gestos de denúncia e cerceamento, o eu lírico valida a primeira opção.

Gabarito: alternativa A.

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