Poesia Marginal no ENEM PPL 2024
etou farta da materialidade embrulhada do signo
da metalinguagem narcísica dos poetas
do texto de espelho em punho revirando os óculos modernos
estou farta dessa falta enxuta
dessa ausência de objetos rotundos e contundentes
do conluio entre cifras e cifrantes
da femini hora que edita a palavra
da lista (política raquítica sifilítica) de supersignos
cabais: “duro ofício”, “espaço em branco”, “vocábulo delirante”,
“traço infinito”
quero antes
a página atravancada de abajures
o zoológico inteiro caindo pelas tabelas
a sedução os maxilares
o plágio atroz
ratas devorando ninhadas úmidas
mil dentes mostrando as dentinas
multidões desejantes
diluvianas
bandos ilícitos fartos excessivos pesados e
bastardos
a pecar e por cima
os cortinados do pudor
vendando tudo
com goma
de mascar
CESAR, A. C. Poética. São Paulo: Cia. das Letras, 2008.
Recorrendo à intertextualidade e à metalinguagem, esse poema expande os referentes da poética de Manuel Bandeira ao
Ver gabarito e explicação
Gabarito: E
O poema declara cansaço da linguagem autorreferencial e refinada para exigir versos cruos e transgressores. Em vez de signos abstratos, o eu lírico demanda “ratos devorando ninhadas úmidas” e “mil dentes mostrando as dentinas”. Essa escolha estética recusa o controle formal e incorpora o grotesco como matéria legítima, prática central da Poesia Marginal.
Ao dialogar com a primeira geração modernista, representada por Manuel Bandeira, o texto não anula o cânone, mas o amplia ao admitir o visceral na literatura. Introduzir, no espaço do repertório tradicional, imagens de efeito desconcertante é o mecanismo que define a expansão desse legado. Alternativa correta: E.
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