Variante linguística no ENEM PPL 2017
Pela primeira vez na vida teve pena de haver tantos assuntos no mundo que não compreendia e esmoreceu. Mas uma mosca fez um ângulo reto no ar, depois outro, além disso, os seis anos são uma idade de muitas coisas pela primeira vez, mais do que uma por dia e, por isso, logo depois, arribou. Os assuntos que não compreendia eram uma espécie de tontura, mas o Ilídio era forte.
Se calhar estava a falar de tratar da cabra: nunca esqueças de tratar da cabra. O Ilídio não gostava que a mãe o mandasse tratar da cabra. Se estava ocupado a contar uma história a um guarda-chuva, não queria ser interrompido. Às vezes, a mãe escolhia os piores momentos para chamá-lo, ele podia estar a contemplar um segredo, por isso, assustava-se e, depois, irritava-se. Às vezes, fazia birras no meio da rua. A mãe envergonhava-se e, mais tarde, em casa, dizia que as pessoas da vila nunca tinham visto um menino tão velhaco. O Ilídio ficava enxofrado, mas lembrava-se dos homens que lhe chamavam reguila, diziam ah, reguila de má raça. Com essa memória, recuperava o orgulho. Era reguila, não era velhaco. Essa certeza dava-lhe forças para protestar mais, para gritar até, se lhe apetecesse.
PEIXOTO, J. L. Livro. São Paulo: Cia. das Letras, 2012.
No texto, observa-se o uso característico do português de Portugal, marcadamente diferente do uso do português do Brasil. O trecho que confirma essa afirmação é:
Ver gabarito e explicação
Gabarito: D
O trecho evidencia rasgos do português europeu, como a posição dos pronomes átonos e o uso do infinitivo. Para identificar a variante, basta detectar o léxico incompatível com a norma brasileira atual. Na opção D, aparece “Se calhar”, expressão lusitana que equivale a “talvez” ou “provavelmente”. Esse termo não faz parte do repertório habitual no Brasil e serve como marcador geográfico preciso.
As demais alternativas mantêm construções validadas em ambas as versões da língua. O emprego impessoal de haver em A, a estrutura nominal em B, a anteposição pronominal em C e a voz passiva em E seguem regras ensinadas nos materiais didáticos nacionais. A diferença resoleira fica apenas no registro vocabular próprio de Portugal.
A alternativa correta é a D.
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