A escrava
Senti-me tocada de veneração em presença daquele amor tão belo, tão singelamente manifestado.
— Sigamos, então — disse eu.
Gabriel caminhava tão apressadamente que eu mal podia
acompanha-lo.
Em menos de quinze minutos transpúnhamos o umbral da habitação, que há dois dias apenas eu habitava.
Eu bem conhecia a gravidade do meu ato: recebia em meu seio dois escravos foragidos, e escravos talvez de alguma tribo de que eram ainda piores a vindita da lei; mas em primeiro lugar o sofrer e depois vir o meu dever era socorrer aqueles infelizes. Sim, a vindita da lei: lei que infelizmente ainda perdura, e que garante ao forte o direito abusivo e, exercendo opressão, oprimir o fraco.
Mas, deixar de prestar auxílio àqueles desgraçados, tão abandonados, tão perseguidos, que nem para a agonia derradeira, nem para transpor esse tremendo portal da Eternidade, tinham sossego, ou tranquilidade! Não.
Tomei com coragem a responsabilidade do meu ato:
a humanidade me impunha esse santo dever.
REIS, M. E. dos. A escrava. In: A escrava: antologia de prosas e versos.
São Paulo: Metabiblioteca, 2021.
Nesse fragmento, o ponto de vista da narradora inova na tradição observada no romance romântico, pois
O que a questão pede
Descobrir qual aspecto do ponto de vista dessa narradora rompe com os temas e posturas habituais do Romantismo brasileiro.