Variante linguística no ENEM 2022
Papos
— Me disseram...
— Disseram-me.
— Hein?
— O correto é “disseram-me”. Não “me disseram”.
-- Eu falo como quero. E te digo mais... Ou é “digo-te”?
— O quê?
— Digo-te que você...
— O “te” e o “você” não combinam.
— Lhe digo?
— Também não. O que você ia me dizer?
— Que você está sendo grosseiro, pedante e chato. [...]
— Dispenso as suas correções. Vê se esquece-me. Falo como bem entender. Mais uma correção e eu...
— O quê?
— O mato.
— Que mato?
— Mato-o. Mato-lhe. Mato você. Matar-lhe-ei-te. Ouviu bem? Pois esqueça-o e para-te. Pronome no lugar certo é elitismo!
— Se você prefere falar errado...
— Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem, Ou entenderem-me?
VERISSIMO, L. F. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001 (adaptado)
Nesse texto, o uso da norma-padrão defendido por um dos personagens torna-se inadequado em razão do(a)
Ver gabarito e explicação
Gabarito: B
O diálogo configura uma interação cotidiana e coloquial, na qual o foco é a transmissão ágil de ideias e a manutenção do vínculo entre os falantes. Construções como “me disseram” e “te digo mais” obedecem à ordem canônica do português brasileiro contemporâneo e garantem fluidez à troca verbal. Exigir “disseram-me” ou “digo-te” naquele momento impõe uma camada artificial sobre a fala espontânea, quebrando a naturalidade esperada para esse tipo de encontro social.
A norma-padrão funciona como referência de elegância em textos formais, provas ou discursos institucionalizados, mas perde sentido quando aplicada cegamente ao dia a dia. A língua é um sistema dinâmico cuja validade depende do público, do meio e do propósito de cada ato comunicativo. Ignorar essas variáveis transforma um recurso estilístico em obstáculo, revelando desconhecimento das regras de adequação linguística. A pretensão de corrigir a fala alheia mostra-se inadequada por desconsiderar o contexto de comunicação em que a conversa se dá.
Alternativa correta: B.
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