Modernismo 1º Fase no ENEM 2022
Era o êxodo da seca de 1898. Uma ressurreição de cemitérios antigos — esqueletos redivivos, com o aspecto terroso e o fedor das covas podres.
Os fantasmas estropiados como que iam dançando, de tão trôpegos e trêmulos, num passo arrastado de quem leva as pernas, em vez de ser levado por elas.
Andavam devagar, olhando para trás, como quem quer voltar. Não tinham pressa em chegar, porque não sabiam aonde iam. Expulsos de seu paraíso por espadas de fogo, iam, ao acaso, em descaminhos, no arrastão dos maus fados.
Fugiam do sol e o sol guiava-os nesse forçado nomadismo.
Adelgaçados na magreira cômica, cresciam, como se o vento os levantasse. E os braços afinados desciam-lhes aos joelhos, de mãos abanando.
Vinham escoteiros. Menos os hidrópicos — de ascite consecutiva à alimentação tóxica — com os fardos das barrigas alarmantes.
Não tinham sexo, nem idade, nem condição nenhuma. Eram os retirantes. Nada mais.
ALMEIDA, J. A. A bagaceira. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1978.
Os recursos composicionais que inserem a obra no chamado “Romance de 30” da literatura brasileira manifestam-se aqui no(a)
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Gabarito: A
O excerto elimina qualquer idealização romântica ao descrever os retirantes com imagens viscerais e grotescas, como “esqueletos redivivos” e “fedor das covas podres”. A narrativa abandona a construção de personagens individuais para tratar o grupo como uma massa homogênea e despersonalizada (“Não tinham sexo, nem idade... Eram os retirantes. Nada mais”). Esse tratamento visual e despojamento de ornamentos poéticos transforma a seca em documento, priorizando a exposição da miséria corporal e da ruptura com as terras natal.
A estrutura do fragmento funciona como registro documental da violência climática e social, estratégia central do movimento que renovou a prosa nacional ao buscar o Brasil esquecido nas regiões áridas. A literatura deixa de lado a psicologia interior e a linguagem culta para adotar um vocabulário áspero que desenho cru da realidade dramática dos retirantes. Essa postura antirrromântica, focada na denúncia regionalista e na materialidade do sofrimento, consolida a identificação do texto com a produção do período. Portanto, a alternativa correta é a A.
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