Modernismo 1º Fase no ENEM PPL 2016
Naquele tempo eu morava no Calango-Frito e não acreditava em feiticeiros.
E o contrassenso mais avultava, porque, já então, - e excluída quanta coisa-e-sousa de nós todos lá, e outras cismas corriqueiras tais: sal derramado; padre viajando com a gente no trem; não falar em raio: quando muito, e se o tempo está bom, “faísca”; nem dizer lepra; só o “mal”; passo de entrada com o pé esquerdo; ave do pescoço pelado; risada renga de suindara; cachorro, bode e galo, pretos; [...] - porque, já então, como ia dizendo, eu poderia confessar, num recenseio aproximado: doze tabus de não uso próprio; oito regrinhas ortodoxas preventivas; vinte péssimos presságios; dezesseis casos de batida obrigatória na madeira; dez outros exigindo a figa digital napolitana, mas da legítima, ocultando bem a cabeça do polegar; e cinco ou seis indicações de ritual mais complicado; total: setenta e dois - noves fora, nada.
ROSA, J. G. São Marcos. Sagarana. Rio de Janeiro: José Olympio, 1967 (adaptado).
João Guimarães Rosa, nesse fragmento de conto, resgata a cultura popular ao registrar
Ver gabarito e explicação
Gabarito: E
Os itens listados — sal derramado, proibição de pronunciar “raio”, pisar primeiro com o pé esquerdo, bater na madeira e fazer o gesto da figa — são agrupados no texto sob os rótulos “tabus”, “regrinhas preventivas” e “presságios”. Esses elementos configuram crenças irracionalistas praticadas no dia a dia para afastar azar ou garantir proteção, sendo transmitidos pela tradição oral e não por instituições formais.
O fragmento demonstra como essa rede de crenças populares compõe o imaginário local, recuperando especificamente exemplos de superstições. As demais opções se excluem pelos dados apresentados: não há menção a letras musicais (A), a ritos de origem africana (B), a normas doutrinais (C) ou a liturgias eclesiásticas organizadas (D). A alternativa correta é a letra E.
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