Variante linguística no ENEM PPL 2015
— Não, mãe. Perde a graça. Este ano, a senhora vai ver. Compro um barato.
— Barato? Admito que você compre uma lembrancinha barata, mas não diga isso a sua mãe. É fazer pouco-caso de mim.
— Ih, mãe, a senhora está por fora mil anos. Não sabe que barato é o melhor que tem, é um barato!
— Deixe eu escolher, deixe...
— Mãe é ruim de escolha. Olha aquele blazer furado que a senhora me deu no Natal!
— Seu porcaria, tem coragem de dizer que sua mãe lhe deu um blazer furado?
— Viu? Não sabe nem o que é furado? Aquela cor já era, mãe, já era!
ANDRADE, C. D. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998.
O modo como o filho qualifica os presentes é incompreendido pela mãe, e essas escolhas lexicais revelam diferenças entre os interlocutores, que estão relacionadas
Ver gabarito e explicação
Gabarito: D
O diálogo expõe um descompasso semântico gerado por termos com sentidos variáveis conforme o contexto social. Para a mãe, “barato” remete ao custo baixo, enquanto o filho o emprega como gíria para algo excelente. Expressões como “furado” também obtêm interpretações distintas entre eles. Essa divergência não decorre de ignorância ou falta de instrução, mas da evolução natural do léxico, que se segmenta conforme a idade e a inserção em grupos diferentes.
Cada geração consolida repertórios vocabulares próprios para marcar identidade e pertencimento. O mal-entendido entre mãe e filho resulta dessas marcas temporais da língua, tipificadas no registro próprio de jovens e adultos mais velhos. A explicação reside nas especialidades de cada faixa etária.
Alternativa D.
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