Realismo no ENEM (Libras) 2022
Esaú e Jacó
Bárbara entrou, enquanto o pai pegou da viola e passou ao patamar de pedra, à porta da esquerda. Era uma criaturinha leve e breve, saia bordada, chinelinha no pé. Não se lhe podia negar um corpo airoso. Os cabelos, apanhados no alto da cabeça por um pedaço de fita enxovalhada, faziam-lhe um solidéu natural, cuja borla era suprida por um raminho de arruda. Já vai nisto um pouco de sacerdotisa. O mistério estava nos olhos. Estes eram opacos, não sempre nem tanto que não fossem também lúcidos e agudos, e neste último estado eram igualmente compridos; tão compridos e tão agudos que entravam pela gente abaixo, revolviam o coração e tornavam cá fora, prontos para nova entrada e outro revolvimento. Não te minto dizendo que as duas sentiram tal ou qual fascinação. Bárbara interrogou-as; Natividade disse ao que vinha e entregou-lhe os retratos dos filhos e os cabelos cortados, por lhe haverem dito que bastava.
— Basta, confirmou Bárbara. Os meninos são seus filhos?
— São.
ASSIS, M. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
No relato da visita de duas mulheres ricas a uma vidente no Morro do Castelo, a ironia — um dos traços mais representativos da narrativa machadiana — consiste no
Ver gabarito e explicação
Gabarito: D
O trecho descreve Bárbara com elementos que parecem destacar humildade e tradição popular. A fita desgastada e o raminho de arruda sugerem simplicidade, enquanto a comparação da cabeça a um “solidéu” e a menção à “sacerdotisa” elevam artificialmente sua imagem perante as visitas. O narrador, porém, dissolve essa fachada ao detalhar os olhos. Eles não transmitem misticismo passivo; são lúcidos e agudos, capazes de penetrar a pessoa e “revolver o coração”.
Essa contraposição revela a ironia estrutural de Machado de Assis. A vidente usa a aparência modesta como estratégia de convencimento, ocultando uma percepção afiada e objetivos calculistas diante das clientes abastadas. O autor subverte a expectativa romântica da mediunidade para expor a manipulação dissimulada sob o véu da fé. A leitura correta identifica esse duplo fundo na caracterização da personagem, o que aponta para o misto de singeleza e astúcia dos gestos da personagem. É a alternativa D.
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