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Modernismo 2º Fase no ENEM PPL 2019

ENEM 2019 · ENEM PPLPortuguêsMédia

O mato do Mutúm é um enorme mundo preto, que nasce dos buracões e sobe a serra. O guará-lobo trota a vago no campo. As pessôas mais velhas são inimigas dos meninos. Soltam e estumam cachorros, para ir matar os bichinhos assustados — o tatú que se agarra no chão dando guinchos suplicantes, os macacos que fazem artes, o coelho que mesmo até quando dorme todo-tempo sonha que está sendo perseguido. O tatú levanta as mãozinhas cruzadas, ele não sabe — e os cachorros estão rasgando o sangue dele, e ele pega a sororocar. O tamanduá. Tamanduá passeia no cerrado, na beira do capoeirão. Ele conhece as árvores, abraça as árvores. Nenhum nem pode rezar, triste é o gemido deles campeando socôrro. Todo choro suplicando por socôrro é feito para Nossa Senhora, como quem diz a salve-rainha. Tem uma Nossa Senhora velhinha. Os homens, pé-ante-pé, indo a peitavento, cercaram o casal de tamanduás, encantoados contra o barranco, o casal de tamanduás estavam dormindo. Os homens empurraram com a vara de ferrão, com pancada bruta, o tamanduá que se acordava. Deu som surdo, no corpo do bicho, quando bateram, o tamanduá caiu pra lá, como um colchão velho.
ROSA, G. Noites do sertão (Corpo de baile). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.

 


Na obra de Guimarães Rosa, destaca-se o aspecto afetivo no contorno da paisagem dos sertões mineiros. Nesse fragmento, o narrador empresta à cena uma expressividade apoiada na
 

Ver gabarito e explicação

Gabarito: E

O trecho descreve a perseguição e o maltrato de animais do cerrado com detalhes que ultrapassam o registro zoológico. O tatú ergue mãozinhas cruzadas em gesto suplicante, e o par de tamanduás dorme em plena confiança até ser ferido por pancadas brutais. Essa abordagem transfere aos bichos postura, emoção e vulnerabilidade humanas, enquanto os sertanejos assumem papel de algozes que agem por impulso violento e gratuito. A cena ganha força expressiva exatamente pela humanização da presa em contraste com o desdém e a ferocidade do homem, dispositivo que transforma a descrição ambiental em denúncia ética.

Guimarães Rosa recorre à antropomorfização para romper com a paisagem idealizada do regionismo tradicional. Ao conferir dor e inocência aos animais, o narrador inverte a hierarquia esperada: a fauna torna-se vítima passiva e o homem, agente de crueldade destituída de propósito legítimo. Esse contraste emocional sustenta o tom dramático do fragmento, alinhando-se à proposta estética da segunda fase modernista que prioriza a questão humana e social.

Portanto, a alternativa correta é a E.

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