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Realismo no ENEM 2014

ENEM 2014LiteraturaMédia

Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto com ele durante os anos que se seguiram ao inventário de meu pai. Reconheço que era um modelo. Arguíam-no de avareza, e cuido que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o déficit. Como era muito seco de maneiras, tinha inimigos que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado neste particular era o de mandar com frequência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais. A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos, e na dor que padeceu quando morreu Sara, dali a alguns meses; prova irrefutável, acho eu, e não única. Era tesoureiro de uma confraria, e irmão de várias irmandades, e até irmão remido de uma destas, o que não se coaduna muito com a reputação da avareza; verdade é que o benefício não caíra no chão: a irmandade (de que ele fora juiz) mandara-lhe tirar o retrato a óleo.

ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992.

Obra que inaugura o Realismo na literatura brasileira, Memórias póstumas de Brás Cubas condensa uma expressividade que caracterizaria o estilo machadiano: a ironia. Descrevendo a moral de seu cunhado, Cotrim, o narrador-personagem Brás Cubas refina a percepção irônica ao

Ver gabarito e explicação

Gabarito: B

O trecho emprega a ironia característica do Realismo ao justificar a violência do personagem por meio de um determinismo ambiental. O narrador não descreve a crueldade de Cotrim como um vício moral isolado, mas sim como consequência direta de sua longa atuação no tráfico de pessoas. Ao registrar que as prisões e castigos aconteciam por puro efeito de relações sociais, o texto expõe como o meio corrompia os indivíduos, relativizando a culpa pessoal diante de práticas banalizadas pela elite. Esse recurso de desresponsabilização moral diante da barbárie constitui o núcleo da sátira machadiana.

As demais alternativas interpretam fragmentos fora do foco crítico da passagem. Não se debate divisão patrimonial, nem se valida ingenuamente a piedade religiosa ou a vanidade ligada ao retrato a óleo. A estratégia consistente do escritor consiste em mostrar como a lógica econômica e social da época transformava a opressão em rotina aceitável. Portanto, a alternativa correta é a B.

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