Realismo no ENEM PPL 2010
Quincas Borba mal podia encobrir a satisfação do triunfo. Tinha uma asa de frango no prato, e trincava-a com filosófica serenidade. Eu fiz-lhe ainda algumas objeções, mas tão frouxas, que ele não gastou muito tempo em destruí-las.
— Para entender bem o meu sistema, concluiu ele, importa não esquecer nunca o princípio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente, como se disséssemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e ele chupava filosoficamente a asa do frango), a fome é uma prova a que Humanitas submete a própria víscera. Mas eu não quero outro documento da sublimidade do meu sistema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de milho, que foi plantado por um africano, suponhamos, importado de Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido; um navio o trouxe, um navio construído de madeira cortada no mato por dez ou doze homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar a cordoalha e outras partes do aparelho náutico. Assim, este frango, que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e lutas, executadas com o único fim de dar mate ao meu apetite.
ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Civilização Brasiliense, 1975.
A filosofia de Quincas Borba — a Humanitas — contém princípios que, conforme a explanação do personagem, consideram a cooperação entre as pessoas uma forma de
Ver gabarito e explicação
Gabarito: B
O trecho mostra Quincas Borba analisando a origem do próprio almoço para justificar sua doutrina. Ao listar a cadeia produtiva do frango — plantio, mão de obra africana, construção naval e tecelagem das velas — ele encerra afirmando que toda aquela “multidão de esforços e lutas” ocorreu com o propósito exclusivo de saciar seu próprio apetite. Essa lógica reduz o trabalho coletivo a um instrumento subordinado à vontade de um indivíduo específico.
A exposição do personagem demonstra que, segundo a Humanitas, a associação entre as pessoas funciona como mecanismo para atender a interesses pessoais. Esse deslocamento do foco do bem comum para o proveito egoísta sustenta a crítica realista presente na narrativa.
Alternativa B.
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