Arcadismo no ENEM 2008
Torno a ver-vos, ó montes; o destino (verso 1)
Aqui me torna a pôr nestes outeiros,
Onde um tempo os gabões deixei grosseiros
Pelo traje da Corte, rico e fino. (verso 4)
Aqui estou entre Almendro, entre Corino,
Os meus fiéis, meus doces companheiros,
Vendo correr os míseros vaqueiros (verso 7)
Atrás de seu cansado desatino.
Se o bem desta choupana pode tanto,
Que chega a ter mais preço, e mais valia (verso 10)
Que, da Cidade, o lisonjeiro encanto,
Aqui descanse a louca fantasia,
E o que até agora se tornava em pranto (verso 13)
Se converta em afetos de alegria.
Cláudio Manoel da Costa. In: Domício Proença Filho. A poesia dos inconfidentes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002, p. 78-9.
Considerando o soneto de Cláudio Manoel da Costa e os elementos constitutivos do Arcadismo brasileiro, assinale a opção correta acerca da relação entre o poema e o momento histórico de sua produção.
Ver gabarito e explicação
Gabarito: B
O poema estrutura-se na tensão entre o mundo urbano e o rural. O eu lírico abandona o “traje da Corte, rico e fino” para retomar a vida nos “outeiros”, valorizando a “choupana” e rejeitando o “encanto” da cidade. Essa dinâmica reproduz o motivo árcade da retirada bucólica, adequando-o ao cenário colonial. Ao confrontar a cultura urbana metropolitana com a vivência agrária local, o verso aponta a oposição entre a Colônia e a Metrópole, eixo interpretativo que sustenta a alternativa B.
As demais opções desvirtulam o texto ou o contexto histórico. Os “montes” e “corinos” compõem a paisagem e os pseudônimos pastoris da Colônia, não da Metrópole; o bucolismo opera como construção literária de evasão, não como retrato realista; a preferência pela cabana é registro afetivo do poeta, sem equivalência em hegemonia econômica ou política da Colônia sobre Portugal; e a conversão do pranto em alegria exprime busca de sossego interior, não diagnóstico sociopolítico do atraso colonial.
A alternativa correta é a letra B.